Um espetáculo majestoso que respeita suas raízes teatrais, sem abrir mão das possibilidades do cinema

Desde que Wicked estreou na Broadway em 2003, o musical se consolidou como um fenômeno cultural, expandindo a mitologia de O Mágico de Oz com um olhar revisionista e emocionalmente rico. A adaptação cinematográfica, dirigida por Jon M. Chu, chega aos cinemas carregando expectativas altíssimas — não apenas pela paixão dos fãs, mas também pelo histórico conturbado da Universal com musicais. Depois de Cats e outras tentativas frustradas, o estúdio sabia que não podia errar. E a boa notícia é que Wicked: Parte Um é um espetáculo grandioso que respeita suas raízes teatrais, sem abrir mão das possibilidades do cinema.
Não é difícil entender por que Chu se tornou um nome disputado em Hollywood. Desde a franquia Ela Dança, Eu Danço até o sucesso de Podres de Ricos, ele provou ter um talento raro: fazer os altos orçamentos dos estúdios se traduzirem em tela. Em uma época em que blockbusters de centenas de milhões de dólares frequentemente desapontam com visuais genéricos e efeitos duvidosos, Chu entrega um filme que esbanja luxo e exuberância. A direção de fotografia de Alice Brooks (tick, tick… BOOM!), o design de produção de Nathan Crowley (Wonka) e o figurino de Paul Tazewell (Amor, Sublime Amor) constroem uma Oz vibrante, equilibrando nostalgia, inovação e credibilidade. O filme não tenta esconder suas origens teatrais — pelo contrário, abraça sua estética de musical clássico e bebe da tradição de Busby Berkeley nos números mais carnavalescos.
A trama segue a jornada de Elphaba (Cynthia Erivo), a jovem de pele verde que, aos poucos, se transforma na Bruxa Má do Oeste. Mas Wicked nunca foi apenas um conto de vilania — é uma história sobre exclusão, preconceito e como a narrativa pode ser manipulada para transformar heróis em vilões. A presença de Erivo é magnética, transitando entre fragilidade e força com precisão cirúrgica. Sua Elphaba é uma personagem cheia de nuances, que deseja ser aceita, mas se recusa a comprometer seus princípios. O impacto emocional de sua interpretação é o que sustenta o filme, e sua performance em Defying Gravity já nasce icônica.

Se Erivo é o coração da história, Ariana Grande surpreende como Glinda, a “bruxa boa” que, na verdade, está longe de ser uma heroína. Sua interpretação combina o humor de Lucille Ball com a leveza de Ginger Rogers, criando uma personagem que oscila entre o carisma e a superficialidade com maestria. Seu momento de brilho absoluto vem em Popular, onde usa gestos milimetricamente calculados e um timing cômico impecável para capturar a essência da personagem. Glinda é, afinal, um lembrete de que nem sempre podemos confiar nos rostos mais encantadores.
Visualmente deslumbrante e ancorado por performances poderosas, Wicked: Parte Um entrega um musical de verdade — e isso, por si só, já é um triunfo. Chu entende que espetáculo não basta se a história não cativar, e é aí que Erivo e Grande brilham, garantindo que o filme não seja apenas uma produção luxuosa, mas um conto emocionalmente envolvente. Com a segunda parte já a caminho, a adaptação se firma como um projeto ambicioso que, ao contrário de outras tentativas frustradas do gênero, realmente faz jus ao material original.
Agora resta a pergunta: se Parte Um já emociona e impressiona desse jeito, o que mais Wicked ainda tem para oferecer?

Wicked: Parte Um
Wicked: Part 1
Ano: 2024
Gênero: Aventuta, Fantasia, Musical
Direção: Jon M. Chu
Roteiro: Dana Fox, Winnie Holzman
Elenco: Ariana Grande, Cynthia Erivo, Jeff Goldblum, Michelle Yeoh, Jonathan Bailey
País: Estados Unidos
Duração:160 min
Comments