Varal Estrela e O Auto da Virada: uma travessia musical entre raízes e renovação
- Marcello Almeida
- há 1 dia
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Há discos que são como estradas: levam o ouvinte de um ponto ao outro, com curvas inesperadas, paisagens familiares e momentos de contemplação

O Auto da Virada, novo álbum do Varal Estrela — banda de Itapeva, São Paulo, que faz do encontro entre o pop, o soul e o rock brasileiro um espaço de experimentação e pertencimento —, marca um ponto de amadurecimento na sonoridade do grupo, consolidando sua identidade e explorando novos horizontes musicais. Lançado em 25 de março de 2025, o disco reflete o crescimento coletivo e a maturação artística do quinteto, que se afasta da fórmula de seu primeiro álbum, expandindo seus horizontes com uma musicalidade mais orgânica, fluida e repleta de referências ricas.
Com a produção de Rafael Barone (Liniker e os Caramelows), o disco é uma fusão potente de MPB, soul brasileiro, funk, jazz e rock, com influências de ícones como Cassiano, Trio Mocotó, Jorge Ben, Curumim, Samuca e a Selva, Black Mantra, além de homenagens claras à pegada dos Mutantes e ao experimentalismo do tropicalismo. A cada faixa, a banda mostra sua capacidade de transitar entre essas sonoridades com uma naturalidade impressionante, equilibrando momentos de intensidade rítmica com introspecções mais melancólicas.
O álbum abre com “Relaxar”, uma faixa que já deixa claro o tom do disco: uma reflexão sobre a rotina e o cansaço, temperada por guitarras suaves que remetem à Jovem Guarda e linhas de baixo pulsantes. A energia ganha novos ares e frescor em Te Esperar, com letras sobre libertação e relações que não devem mais ser aguardadas, onde o balanço do samba se mistura com elementos pop e jazzísticos.
“Feito Pra Você”, single lançado anteriormente e que já dava pistas do novo caminho. A parceria com a banda Garotas Suecas adiciona um groove irresistível, com uma linha de baixo que caminha solta, cheia de balanço, enquanto as guitarras evocam ecos da Jovem Guarda e da Tropicália.
“A Todo Instante”, com seus fortes grooves e uma pegada quase psicodélica, traz o espírito da Banda Black Rio e a experimentação do álbum Maria Fumaça, com uma linha de baixo dançante e uma seção de metais afiada. Aqui, o Varal Estrela joga com ritmos mais soltos e sensações de transformação, como se cada acorde fosse uma escolha de vida em constante movimento. A faixa revela a complexidade da banda em equilibrar peso e leveza dentro de um mesmo espaço sonoro.
A suavidade melancólica de “Flor de Maio” dá uma pausa reflexiva no álbum, com letras que falam sobre despedida, mas também sobre o desejo de continuar sonhando e amando. A guitarra jazzística e o ritmo funkyado oferecem um tom introspectivo que, ao mesmo tempo, é aberto e sensível. É uma das faixas mais tocantes e maduras, mostrando a habilidade da banda em misturar a dor com a beleza musical.
Em “Serpente”, a banda mergulha em uma das atmosferas mais densas do álbum. O arranjo, que mistura samba, funk e jazz, é pesadamente cativante. A letra, sobre superação de vícios e tentativas de esquecer, traz uma metáfora de movimento e enredo de libertação. O clima quase claustrofóbico da música, somado aos arranjos intrincados, evoca uma sensação de luta e de constante transformação – um dos momentos mais vanguardistas da banda, que traz lembranças do Clube da Esquina e da Black Rio.
Mas O Auto da Virada não é só experimentação sonora. A banda sabe como pegar a audiência pelo lado emocional, como em “Mãe”, onde a simplicidade da melodia e a profundidade da letra dão o tom mais direto e pessoal do álbum. Com isso, Varal Estrela consegue combinar a fusão entre o moderno e o clássico, a experimentação com a melodia popular brasileira, em uma obra que é ao mesmo tempo desafiadora e acessível.
O álbum, gravado no estúdio Koletiv, contou com a participação de nomes como a banda Garotas Suecas e o cantor Allyson, e foi habilidosamente mixado por Luis Lopes e Rafaela Prestes. A produção é precisa e rica, dando a cada instrumento o espaço que ele merece, seja nas percussões de Danilo Moura, no violão de Camilo Macedo ou nos sopros de Éder Araújo, Pedro Costa e Doug Bone. O resultado final é um disco coeso, bem equilibrado e, acima de tudo, autêntico.
Com O Auto da Virada, a Varal Estrela se firma como uma banda de identidade própria, capaz de mesclar influências brasileiras e internacionais de maneira fluida, criativa e, ao mesmo tempo, emocional. A sonoridade sofisticada e a construção das faixas mostram uma banda que não tem medo de explorar novos caminhos e levar a música brasileira a lugares inesperados. O disco é, sem dúvida, um grande passo para a banda – e para a música brasileira contemporânea.

O Auto da Virada
Varal Estrela
Ano: 2025
Gênero: Funk, Jazz, Pop, Rock, MPB
Ouça: "Relaxar", "Flor de Maio", "Feito PraVocê"
Pra quem curte: Clube da Esquina, Tim Maia, Banda Black Rio
Humor: Envolvente, Libertador
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