O gato, o silêncio, o caos e um pedaço de pizza embasam o drama apocalíptico de Um Lugar Silencioso: Dia Um
- Marcello Almeida
- 23 de jul. de 2024
- 5 min de leitura
Talvez tudo que precisamos em certos momentos seja nos silenciar e aproveitar um pedaço de pizza

Um dos primeiros pensamentos que surgem na mente quando se pensa em Um Lugar Silencioso: Dia Um é como seguir a regra do silêncio em uma cidade como Nova York. O spin-off dos dois aclamados filmes dirigidos por John Krasinski, Um Lugar Silencioso (2018) e Um Lugar Silencioso: Parte II (2020), nos leva ao início da invasão dos seres alienígenas em Nova York, uma cidade movida pelo som e que sempre é palco de desastres ambientais e destruição total no cinema.
De fato, essa premissa nos leva a refletir sobre o caos, a calma e a importância do silêncio em certos momentos. Em Dia Um, não é diferente dos dois primeiros filmes, o silêncio pode custar a sua vida.
Na trama do filme, acompanhamos Sam (Lupita Nyong’o) e seu inseparável gato Frodo. Sam é uma escritora enfrentando um câncer terminal. Ela já vive um tormento pessoal e a morte sempre iminente diante dos seus olhos, tudo o que ela quer é comer um pedaço de pizza. Isso pode até soar simples demais, mas tem um significado e uma simbologia muito importantes na vida de Sam. Obviamente, seus planos são interrompidos pela chegada dos monstros na Terra.
A ideia do diretor Michael Sarnoski, do ótimo Pig (2021) com Nicolas Cage, que assume o lugar de Krasinski e desempenha um ótimo trabalho nesse blockbuster, é deixar o terror e a ação um pouco de lado para explorar a dramatização e a carga emocional dos personagens. O filme é centrado em Sam e logo conhecemos Eric (Joseph Quinn). A química entre os dois é um dos encaixes perfeitos do filme. Logo percebemos que Eric também possui seus traumas e medos. Dois estranhos com seus conflitos internos que enxergam um no outro o pilar para sobreviver ao medo e terror instaurado pelas criaturas.
Em um filme de poucos diálogos, os olhares de ambos dizem muito sobre os sentimentos e aflições da vida. O gato Frodo também é uma peça central do filme. Ele nos guia pelas ruas esfumaçadas e destruídas de Nova York, e logo passamos a nos importar com o felino. Frodo, acima de tudo, representa a paz, a calma e um sentido diante de todas as adversidades de Sam e Eric.
Sarnoski sabe utilizar a fotografia, a luz e a ambientação introspectiva, muito vistas em Pig. Em um filme que foca menos na ação e no terror, o diretor atenua os momentos de tensão e ataques dos alienígenas com uma atmosfera de filmes de guerra e desastres ambientais. Isso soa convidativo e acrescenta momentos de pânico. Lupita com seus olhos esbugalhados intensifica ainda mais esses momentos de tensão e pavor. Essa expressão no olhar já foi vista no aterrorizante Nós (2019) de Jordan Peele. Quinn também consegue acompanhar Lupita nessa atmosfera. São duas atuações exemplares. Em muitos momentos Sam é muito mais forte do que Eric, que transparece suas fragilidades e medos, o longa não nos conta, mas Eric também traz suas marcas, cicatrizes, anseios e incertezas e em meio a isso tudo carrega um imenso coração e empatia pelo próximo.
Essa bondade de Eric eterniza uma das cenas mais bonitas e acolhedoras de Dia Um e contrasta com o que já vimos em alguns longas do gênero, onde as pessoas agem por conta própria e com individualismo. Com isso, Sarnoski está nos dizendo que, diante da bagunça e problemas do nosso mundo, a compaixão pode ser um alento diante dos atritos e dificuldades da vida.
O ritmo mais lento e a narrativa focada na dramatização podem levar algumas pessoas a torcerem o nariz para a produção, por esperar mais das tensões apresentadas nos dois primeiros filmes. Os efeitos de som não atingem o impacto e a pontualidade dos outros dois longas, mas agradam na maior parte da experiência em Dia Um. Não espere uma sequência de ação e terror em doses frenéticas; a ambientação e a atmosfera aqui são diferentes. É certo que as cenas de ação deixam a desejar e mostram mais do mesmo visto anteriormente. Para corrigir tais falhas, o diretor aposta em uma narrativa mais complexa sobre a vida e suas memórias, e sobre quem encontramos pelo caminho nessa curta ou longa jornada.
Porém, o diretor sabe como instaurar essa ambientação mais voltada para o drama. Claro que o filme possuía muitos elementos para serem utilizados e para fazer da trama um grande filme de ação, terror e suspense: o início da invasão, a cidade de Nova York e seu caos urbano. Mas talvez isso pudesse transformar o filme em um caça-níquel embasado na sombra do sucesso dos dois longas anteriores. O drama equilibra e atribui emoções. Sarnoski usa a chegada das criaturas na Terra para dramatizar ainda mais a vida de uma mulher com câncer terminal em tratamento paliativo, que, apesar de tudo, só quer comer um pedaço de pizza. Ele está mais afim de contar uma história que desperta emoções e reflexões sobre a vida e a morte, e sobre o que realmente importa nesta vida e no mundo quando ele definitivamente está de ponta-cabeça.
Vendo o filme desse ponto de vista, ele agrada e prende a atenção. Por mais que faltem cenas de ação e terror mais bem trabalhadas, as atuações de Lupita e Quinn entregam a esta prequela de Um Lugar Silencioso uma nova perspectiva sobre o silêncio apresentado nos outros dois longas. Tirar o foco de uma família fazendo de tudo para sobreviver ao apocalipse e manter seus filhos a salvo e direcioná-lo para o drama de uma mulher nos últimos dias ou meses de vida, que encontra em seu gato e Eric um propósito para ver a vida com outros olhos diante do mundo que desaba a seus pés, acrescenta novas emoções a essa saga silenciosa.
Talvez tudo que a gente precise em momentos turbulentos e de desespero seja fazer como Sam, que entra em uma livraria abandonada, retira um livro de bolso da ficção científica Dawn, de Octavia E. Butler, de 1987, e cheira suas páginas. Nesse instante, Sam pode estar saboreando os últimos vestígios de humanidade diante do terror de um mundo apocalíptico. Em um mundo acelerado, corrosivo e de barulhos constantes, quem sabe a gente não precise mais de momentos silenciosos e aproveitar um pedaço de pizza ao lado do seu gato e de quem realmente se importa com você, mesmo tendo te conhecido há poucos instantes, em meio ao fim e quando seu mundo está completamente de ponta-cabeça.
Um Lugar Silecioso: Dia Um
A Quiet Place: Day One
Ano: 2024
Gênero: Terror, Drama
Direção: Michael Sarnoski
Roteiro: John Krasinski, Michael Sarnoski
Elenco: Lupita Nyong’o, Joseph Quinn, Alex Wolff, Djimon Hounsou
País: Estados Unidos
Duração: 99 min
NOTA DO CRÍTICO: 7,0
Trailer:
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