Entrevista: Ana Flor celebra a ancestralidade com rock, Bumba Meu Boi e poesia em Pranto Terra
- Marcello Almeida
- há 1 dia
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"A música brasileira sempre foi antropofágica, e continua sendo"

Depois de anos costurando sua voz em tantas frentes da música brasileira, Ana Flor chega ao seu primeiro voo solo com a precisão de quem conhece bem os caminhos por onde pisa — e também a leveza de quem se permite inventar novas rotas. Pranto Terra, lançado em fevereiro, não é apenas um disco: é rito de passagem, é carta de intenções, é manifesto afetivo e artístico.
Filha do encontro entre pesquisa e tradição — Daraína Pregnolatto e Tião Carvalho, seus pais — Ana transforma vivência em canção com um olhar que mistura a rebeldia do rock, o suingue do brega, o calor do pagode baiano, a cadência do bolero e a força ancestral do bumba meu boi. Tudo isso com corpo, com cor, com coragem.
Nesta entrevista exclusiva, ela nos recebe com generosidade para falar sobre raízes, reinvenção, desejo, metáforas e o caminho que a levou até esse disco que já nasce com cara de clássico contemporâneo. Um papo leve, profundo e cheio de flor.
Seu primeiro álbum solo chega depois de duas décadas de carreira. O que mudou na Ana Flor artista e na Ana Flor pessoa que fez esse momento ser o ideal para esse lançamento?
O tempo me deu mais consciência da minha potência, da minha voz e do que quero expressar. Mudei hábitos, deixei vícios e caminhei de mãos dadas comigo mesma. Pranto Terra nasce desse amadurecimento, da urgência de cantar minha história e minhas lutas com plena autonomia.
“Pranto Terra” é uma homenagem às suas raízes, mas também um convite à reinvenção. Como foi equilibrar tradição e inovação nesse trabalho?
Eu trago as matrizes da cultura popular no corpo e na voz, mas elas nunca estiveram paradas no tempo. Pranto Terra é um espaço onde essas tradições seguem vivas, dialogando com novas sonoridades e perspectivas. Trago elementos do Bumba Meu Boi, do tambor de crioula e da capoeira angola, mas os ressignifico em arranjos e narrativas que falam com o presente. Meu trabalho valoriza as raízes ancestrais, mas sem fixá-las no passado - ao contrário, busco trazê-las para a superfície, ampliando o alcance das vozes que há séculos constroem a identidade musical do Brasil. Além disso, a música é também um território de luta e nesse disco trago esse olhar atravessado pelo antirracismo, pela resistência feminina e pelas questões de classe.

O álbum transita por gêneros como brega, bolero, bumba meu boi e rock’n’roll. Qual foi o fio condutor para unir tantas referências sem perder identidade?
Minha identidade é esse encontro de caminhos. O fio condutor é a minha vivência, minha visão de mundo, minhas próprias experiências. Cada ritmo carrega uma verdade que me atravessa e se conecta no disco.
Seu pai, Tião Carvalho, é um mestre quilombola do Maranhão. Como essa herança cultural moldou sua visão artística e sua forma de compor?
Meu pai para além de uma referência musical, é uma referência de conduta. Cresci dentro das rodas, brincando de Boi, tocando tambor. Essa vivência me ensinou que música não é só som: é corpo, história e resistência. Com meu pai - um bom aquariano como eu - aprendi a olhar os detalhes, aprendi sobre respeito, sobre interpretação entre a linha tênue entre limite e cuidado. Compor pra mim é continuar esse legado, dando a ele novas camadas.
As letras do disco misturam leveza e crítica, metáfora e poesia. Qual foi a música mais desafiadora de escrever e por quê?
Gaia, sem dúvida. A música fala das dores e da exploração tanto da mulher quanto do planeta Terra. Logo no início do processo de composição, percebi que a voz poética que daria significado a essa canção seria a de uma mulher trans. Sendo uma mulher cis, escrevi com muito cuidado e responsabilidade, buscando honrar essa perspectiva com verdade e respeito. Foi um desafio traduzir essa força e essa resistência sem cair em clichês, mas também uma experiência profunda de escuta e aprendizado.
“Pipoca Doce” fala de antropofagia cultural e sentimental. Você sente que a música brasileira contemporânea tem conseguido absorver e ressignificar suas influências da mesma forma que no passado?
A música brasileira sempre foi antropofágica, e continua sendo. O desafio hoje é resistir à pasteurização e manter viva essa fome de misturar, reinventar, criar sem medo.
Meu pai para além de uma referência musical, é uma referência de conduta. Cresci dentro das rodas, brincando de Boi, tocando tambor. Essa vivência me ensinou que música não é só som: é corpo, história e resistência.
O disco conta com participações de Kiko Dinucci e Toninho Carrasqueira. Como esses encontros ajudaram a dar corpo à sonoridade do álbum?
Kiko Dinucci é genial, tem uma reverência com sua forte e responsável pesquisa na música, mas com uma atenção cuidadosa da cultura popular e detentores desses saberes. Me identifico com o cuidado que traz na sua forma de trabalho. Ele chega com corpo pesado ajudando nessa transição de samba para rock que é Jurandir. Já o Toninho Carrasqueira participa da minha percepção sonora. Minha convivência com ele é muito antiga, desde sempre ele esteve presente na minha família, por ser muito amigo dos meus pais. Então quando penso em música, ele logo vem à minha mente, e com a composição de “Ai de mim” foi assim, enquanto compunha já vinham as melodias da flauta de Toninho em minha mente. Ele vem também para representar essa geração de músicos antigos que me rodeou, que são minha referência e minha formação, então ele topar abençoar esse trabalho e representar essa grande turma é muito grandioso
O show de lançamento no Sesc Vila Mariana trouxe Rodrigo Mancusi como convidado. O palco é um lugar onde você também experimenta e reinventa sua música?
O palco é o lugar onde me sinto mais à vontade no mundo! Então sim, aproveito pra sempre reinventar, manifestar com arte o que trago por verdades e fazer isso com alides é sempre trará mais força e potência para as nossas querências em comum.
A nova cena da MPB tem se reinventado de muitas formas. Como você se enxerga nesse movimento e quais artistas dessa geração mais dialogam com sua música?
Me vejo nesse fluxo, trazendo com coragem o Brasil profundo para a superfície, sempre reinventando com autenticidade, sendo minha fiel aliada. Artistas como Letícia Fialho, Tássia Reis, Bruna Alimonda, Maria Ó, Rodrigo Mancusi, Afroito, Getúlio Abelha, Gabeu entre outros muitos que também seguem esse caminho, resgatando e ressignificando nossas matrizes.
Se “Pranto Terra” fosse um território imaginário, como seria esse lugar? O que teria nele, quem o habitaria e que sons ecoariam por lá?
“Pranto Terra” não é muito diferente do que a gente vive agora. Ele fala sobre uma terra fértil, bonita, diversa, maravilhosa que está cansada de ser explorada, que quer só fluir. Os cantares são parecidos com os nossos, eles clamam, eles agradecem, eles louvam e brincam.
Para encerrar, qual mensagem Ana Flor deixa para o público brasileiro?
Que a gente siga cuidando, dando atenção, valorizando o que está ao redor. Que a gente consiga minimamente pensar comunitariamente, pois a Terra está aos prantos e só a gente, com amor e atenção, pode fazer alguma coisa por Ela.
Minha música nasce da interseção entre tradição e reinvenção, trazendo à superfície as culturas populares como o Bumba Meu Boi, o tambor de crioula e a capoeira angola, mas sem deixá-las presas ao passado. Carrego um olhar de luta, atravessado pelo antirracismo, pela resistência feminina e pelas questões de classe, ampliando as vozes que há séculos constroem a identidade musical do Brasil. Pranto Terra é sobre isso: pertencimento, transformação e coragem para seguir.
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